29 de ago. de 2013

Presidente da CBN fala sobre Avivamento

"Nós não fazemos como Moisés, que cobria o rosto com um véu para que os israelitas não pudessem ver que o seu brilho estava desaparecido." 2 Co 3.13
Escrevo antes do Congresso de Pastores promovido pela Ormiban, em Caldas Novas. Digo logo, por que me sinto atraído a tratar do tema Avivamento, expondo minha visão, fazendo uso do espaço que me cabe nesse jornal, que entre outras coisas, visa ser um formador de opinião, fomento de reflexão e interação. Alguns leitores, generosamente, têm me encorajado a seguir pontuando a leitura que faço da nossa instituição e dos rumos pretendidos. Assim, vamos tratar do tão profetizado avivamento em terras brasileiras.Por definição, avivamento consiste numa obra extraordinária de Deus em determinado contexto (tempo, espaço, povo). Há muitos registrados na história, desde os narrados em Atos dos Apóstolos: Jerusalém, Samaria, Antioquia da Síria e Éfeso. Nos quatro relatos temos pregação poderosa, sinais e prodígios, conversão em massa, santificação e impulso missionário. O mesmo fenômeno se reproduziu em diferentes épocas do cristianismo. Os mais conhecidos são do século XVIII destacando-se os avivamentos/movimentos moraviano e wesleyano (e seus reflexos no País de Gales, Escócia e Nova Inglaterra). Os dois movimentos foram gestados na busca de santificação, vida piedosa, oração contínua de crentes influenciados pelo pietismo alemão e puritanismo inglês. Poucos sabem hoje que as “denominações” que geraram os avivamentos e impulsionaram as missões modernas foram os luteranos e os anglicanos.
O avivamento europeu refletiu na América do Norte, e de lá foi exportado para a América Latina numa série de ondas missionárias. A partir do final do século XIX, os protestantes históricos aqui chegaram com seus colégios e seminários, importantes estratégias missionárias. Na segunda década do século XX, chegam os pentecostais tomados pelo Espírito Santo na Azuza Street, em Los Angeles. Outra estratégia foi usada: a multiplicação de igrejas sob a direção de gente com o mínimo preparo formal, mas cheios de entusiasmo e dons espirituais, concomitante com o processo de urbanização e industrialização da sociedade brasileira. Foram algumas décadas para a implantação do protestantismo no Brasil, hegemonicamente católico.
Eu creio que o verdadeiro avivamento brasileiro aconteceu entre meados da década de cinquenta e o final da década de sessenta. Rompeu-se os paradigmas do Brasil católico e que o protestantismo era uma religião de estrangeiros. Surgiu a real igreja brasileira, que gradualmente rompeu os laços com a matriz cultural norte americana/europeia na geração de uma liderança local teológica, litúrgica e ministerialmente tupiniquim. Não foi uma ruptura rápida ou sem traumas. O avivamento produziu divisões, mas foi suficientemente abrangente para tornar-se irreversível. Até quem não aderiu no primeiro momento, teve que se adaptar, pois as mudanças vieram para ficar. A igreja brasileira se consolidou multifacetada, plural, subjetivista, mística e liturgicamente livre. Vinte anos depois, estava pavimentado o caminho para o advento das comunidades evangélicas e o surgimento do neopentecostalismo brasileiro. Quase tudo que temos hoje nasceu, reorganizou-se, ou brotou de uma expressão da igreja existente na década de 60. Não há nada de novo, apenas coisas renovadas. Talvez, deturpadas defina melhor algumas delas.Como quem joga uma pedra num lago de águas muito calmas, decorridos cinquenta anos do fim do avivamento brasileiro, o que temos hoje são as ondas circulares remanescentes. Elas seguem se propagando, mas a energia que as gerou está se extinguindo. Seus efeitos foram amplos, mas cada vez mais fracos. Assim, temos ainda alegria, liberdade, dons espirituais e esforço missionário decorrentes do avivamento brasileiro chamado de Renovação Espiritual. Berço batista nacional, nossa herança, nossa história, compartilhada com quase todas as expressões da igreja brasileira atual.Como se expressa o avivamento brasileiro hoje? Eu diria: “queremos mais do mesmo”, ou seja, não se apresentam coisas novas, apenas o resgate daquilo que está se desvanecendo. Como o rosto de Moisés que perdeu gradualmente o brilho, escondemos a face com o véu para que não perceba que tudo o que temos é “mais do mesmo”.Todos, pentecostais, históricos, renovados, comunidades e grupos alternativos procuram o algo mais, aquilo que vai transformar a situação e fazer eclodir um novo avivamento no Brasil. Alguns alardearam ser precursores do avivamento. Primeiro as comunidades, nos anos 80 e 90, com seu discurso de unidade pós denominacional; depois as igrejas celulares, na virada do milênio, com a falácia do crescimento universal e explosivo; por fim, as igrejas apostólicas e seus profetas da última hora. Todos não passam de ondas tentando manter vivo um avivamento que já foi, embora pensem ser prenúncio de um avivamento que ainda virá.Pessoalmente desconheço um país onde isso tenha ocorrido. Israel, Grécia, Ásia Menor (Turquia atual), Alemanha, Inglaterra, EUA, Coréia do Sul... por que o Brasil seria o país de dois avivamentos? A menos que meus irmãos queiram negar que Renovação Espiritual tenha sido um genuíno avivamento. O que nossos pais viram, e nossos pioneiros viveram foi pregação poderosa (inclusive no rádio - comunicação de massa naqueles dias), sinais e prodígios (verdadeiros e não sugestionados), conversão em massa (surgimento de muitas igrejas nacionais), santificação (vigílias, jejuns e oração como nunca antes) e impulso missionário (missões nacionais e transculturais que ainda perduram). Ou seja, a experiência de Atos dos apóstolos já se deu em terras brasileiras.Vejo as águas ainda se movendo desde que a pedra foi lançada. Mas cada ano seus efeitos são menos perceptíveis. Humanamente falando, creio que o secularismo e a cultura capitalista de europeus e norte americanos nos esperam adiante. O cristianismo feito cultura tem sido a morte do evangelho: quem olha por fora vê um sepulcro caiado, talvez até de granito, mas por dentro, uma religiosidade morta. Teremos força para romper com tal tendência?Temo que daqui algumas décadas, os grandes templos ficarão vazios, como vazios são os corações e a cabeça de muitos que hoje os frequentam. Essa gente movida por ganância, que segue pregadores presunçosos não dará boa cepa. O vinho que provirá de suas uvas será como fel, e tais figueiras, cheia de folhas, não darão fruto algum. Os pseudo avivalistas sem caráter, politiqueiros, adúlteros, mercenários são apenas discípulos de Balaão, como já disseram Judas e Pedro. Que fruto bom se pode colher de tais árvores? Ilusão: é o que eles são e tudo o que vendem.
Pelo que orar então? Por um reavivamento? Penso que pela manutenção do fogo, para que o Espírito sopre as cinzas, para que a brasa se mantenha, pela preservação de um remanescente que se santifique, ame e propague o verdadeiro evangelho e não deixe de cumprir a Grande Comissão. Prefiro orar segundo as Revelações:
O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida.
Ap 22.17.Presidente da CBN




Pr. José Carlos da Silva

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